A mãe recém-nascida: Considerações sobre a gestação e o puerpério

A mãe recém-nascida: Considerações sobre a gestação e o puerpério

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A gestação é um momento marcado por muitas mudanças na vida de uma mulher sendo; alterações hormonais, mudanças corporais, psicológicas, sociais, econômicas, entre outras; podendo acarretar-lhe a vivência de sentimentos ambivalentes, a ela, relacionados. Cada mulher vivencia esse período de forma subjetiva, de acordo com a sua história pessoal e familiar, as suas vivências com as figuras primárias, sua construção e visão de mundo e a representação simbólica que possui da gestação.

Em nossa cultura a maternidade é vista de forma idealizada e qualquer sentimento negativo da mãe para com o bebê, é visto como algo da ordem do inadmissível, dificultando desta forma, que as mulheres revelem e compartilhem os sentimentos conflitivos. Apesar de ser uma experiência permeada por emoções positivas e agradáveis, também é uma fase caracterizada pela vivência de muitas renúncias e abnegações, sendo que a possibilidade de expressão das emoções despertadas, contribui positivamente para processo de elaboração dessa fase de transição.

Do ponto de vista psicológico, trata-se da obtenção de um novo papel social, da construção de uma nova identidade: a identidade materna, a qual terá que integrar aos outros papéis sociais já existentes em sua vida. Contudo, essa construção psíquica muitas vezes não ocorre simultaneamente à evolução da gestação e posteriormente ao nascimento do bebê, ao contrário, muitas vezes pode demandar um tempo interno maior, do qual a mulher não dispõe, devido às exigências práticas do exercício da maternagem. Em outras palavras, trata-se de uma experiência que requer a criação de um espaço psíquico para a chegada de um filho, porém a realidade externa e as necessidades do bebê se impõem, comprometendo esse trabalho de organização interna da mãe.

O ciclo gravídico puerperal é um período completamente novo, caracterizado pela chegada de um bebê recém-nascido e uma mãe recém-nascida, o qual implica num processo de transformação psíquica, vivenciado de forma subjetiva por cada mulher e envolve três grandes momentos: a transformação da filha em mãe (conflitos relativos à relação com a própria mãe podem se atualizar), a mudança da autoimagem corporal (o corpo está irreconhecível) e a relação entre sexualidade e a maternidade, (agora encontra-se um terceiro elemento entre o casal, sendo que este precisa encontrar um espaço para o bebê dentro dessa nova configuração, de forma a deixar preservada a sua sexualidade).

Trata-se de um momento complexo, devido à intensidade da experiência emocional vivida pela mulher, sendo que a forma com que cada uma poderá lidar com tal experiencia, dependerá também de sua própria organização psíquica, ou seja, da posse de recursos internos mais ou menos estruturados.

Em alguns casos inclusive, as mulheres durante a gestação e/ou após o nascimento do bebê desenvolvem alguns quadros clínicos, que se diferem pela quantidade e sobretudo pela intensidade dos sintomas, sendo os mais comuns:

O blue puerperal (tristeza materna): é caracterizado pelo estado de humor deprimido, além de outros sintomas, tais como: desânimo, angústia, impaciência, irritabilidade, baixa autoestima, cansaço, choro, tristeza, insegurança em relação ao desempenho da maternagem, entre outros. É uma condição que não incapacita a mãe de exercer os cuidados ao bebê, sendo que os sintomas manifestados normalmente desaparecem espontaneamente.

A depressão pós-parto: é um quadro clínico mais grave podendo trazer comprometimento significativo no relacionamento entre a mãe e o bebê. É um sofrimento psíquico intenso e persistente, com presença de sintomas como: oscilações de humor, tristeza profunda, desinteresse pelas atividades cotidianas, irritabilidade, doenças psicossomáticas, alterações no sono, no apetite e na libido; além da rejeição do bebê e consequentemente a incapacidade de cuidá-lo. Os sintomas podem agravar-se, chegando inclusive, a pensamentos suicidas e homicidas em relação ao mesmo. É importante destacar que alguns fatores de risco tais como (histórico prévio de transtorno depressivo ao longo da vida e durante a gravidez; complicações clínicas e hospitalizações durante a mesma; gestação não planejada/desejada; histórico de aborto ou óbito fetal; dificuldades financeiras; conflitos conjugais e familiares) estão correlacionados com uma maior incidência de depressão no pós-parto.

A psicose puerperal: é um quadro acentuadamente grave, caracterizada pela perda do senso de realidade, delírios e alucinações. Os sentimentos de angustia são da ordem do insuportável, podendo aparecer também sintomas como; pensamento desconexo e rituais obsessivos. Neste caso se faz necessária a presença de um familiar que possa realizar a função materna e atender as necessidades físicas e emocionais do bebê, visto a impossibilidade da mãe de realizá-las.

É importante ressaltar que para todos esses quadros mencionados anteriormente, é indicado o acompanhamento de profissionais especializados na área da saúde mental, sobretudo o acompanhamento psicológico e nos casos mais complexos, também o tratamento psiquiátrico (quando necessário, introdução de medicação). Além destes, outros recursos, tais como terapias em grupos especializados e cursos para gestantes, curso de shantala, técnicas artísticas, entre outros, também podem funcionar como vias de expressão dos conteúdos emocionais despertados nessa fase.

Por fim e não menos importante, o suporte familiar e sobretudo do cônjuge contribue efetivamente para o desenvolvimento emocional da mulher. O acolhimento aos seus sentimentos, além de compreensão e apoio nesse momento único, ou seja, livre de exigências quanto às atitudes idealizadas pela sociedade, podem auxiliá-la no fortalecimento de sua auto confiança e na elaboração desse momento de transição e construção de sua identidade materna.

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Alice Santana Psicóloga | 2025
By Ideiaria